QuartoInteiro
Não consigo formular raciocínios tão rápidos, tão efusivos. Não consigo, simplesmente não consigo, achar exatamente o ponto certo da questão. Estou gravitando, suspenso, entre um ponto e outro, agarrando-me aos conceitos que tenho disponíveis, às poucas e tênues verdades às quais construo a ponte entre estes diversos “eus” aprisionados para fora desta janela denominada sociedade. Aliás, nos deram algumas palavras: sociedade, vida, trabalho, prazer, ócio. Vestiram-nas sobre nós e sobre nosso corpo e, sempre, sempre, sempre nos dizem: elas são suas. Todas as chamas da dúvida são capazes de produzir um incêndio pessoal, mas espero que destas cinzas apareça um novo eu.
Tenho apenas rompantes e medo de estar vagando. Me sinto absurdamente sozinho nesta empreitada. Não tenho as chaves e não posso sequer ver no meu próprio aniquilamento um caminho de resposta. Se os outros são selvagens, animais que rodeiam sempre na velha disputa pela presa, eu sou apenas um estágio entre o predador e a presa. Sou a falta de vontade de representar estes extremos.
Não eu não tenho fósforos, amigo. Se o tivesse é claro que acenderia com prazer o seu cigarro (como acenderia com prazer qualquer cigarro de qualquer outra pessoa). Mas não tenho.
“Como suportar em mim esse estranho?”
Todos os dias ele me cobra uma coerência e não tenho uma vaga impressão do que se trata. Sigo na ignorância e ponho um sorriso enganador no rosto. Dou as costas às anotações na agenda. Todos os afazeres me cansam. Minha única vontade é contar histórias, histórias sem nexo, histórias em branco em uma página com todos os “eus” que existirão apenas para os outros, a não ser na cabeça dos outros. Justamente, o que faço é surripiar as idéias alheias.
Dentro de mim, sou vago, oco. Mesmo que o outro, o estranho, insista em tentar me mostrar coisas, apresentar visões, buscar sentidos, sou oco. Apenas escuto tudo sem nenhuma responsabilidade e, depois, esqueço. Tudo o que guardo são coisas desnecessárias. Não venham me dizer do que eu preciso. Não digam o que posso, pois não tenho o menor compromisso comigo mesmo. Quero sentar na minha poltrona e deixar que minhas mãos inquietas se deixem levar por um espírito qualquer. Minha cabeça precisa estar totalmente vazia para preenche-la com flores num céu lilás.
São minhas estas flores. É meu este céu. Não quero debater sobre eles. Não quero nada além de aliviar a necessidade para sossegar minhas mãos. Só zelo de verdade pelas minhas mãos. O resto é teoria. Não quero uma explicação acadêmica para a minha inquietação. Não quero um adjetivo para sustentar meu espírito. Não me interessam psicanalistas, pastores, líderes comunitários, os empresários bem-sucedidos.
E o estranho insiste em achar que percebe mais do que pode.
Está em minha natureza flertar com espaços em branco. Não tenho conhecimento real sobre nada, só sei que preciso estar na minha poltrona e permanecer com as mãos para o ar. Sei disso como o leão sabe cravar as unhas na presa. Sei que meu real sentido é esperar o abstrato de olhos abertos. Vejo na senhora da esquina uma outra mulher. E esta mulher é apenas uma das mulheres que contém a senhora da esquina. A maioria delas será enterrada por teorias e idéias que nunca tiveram a ver com a senhora da esquina. Mas ela nunca saberá. Boa parte dela está morta.
Preciso estar livre de conceitos. Preciso jogar no lixo todos os valores alheios. Riscar do meu livro as opiniões do estranho e defrontar minhas demências sem sofrimento. Até hoje sofri muito por causa desse estranho. Ouvi demais seus bons conselhos e, mesmo sem lhe dar atenção, percebo o quanto ele é cruel. É ele o sujeito bem vestido, justamente aquele homem bem-vestido que esconde no bolso do paletó uma presa podre. Um cadáver que jaz mole no forro de seda de seu terno alinhado, um ser cujos ossos foram estraçalhados nas garras devidamente ocultas do estranho.
Demoro a perceber, mas tenho a impressão que sou eu quem apodrece neste bolso sem saber se serei um dia devorado. E o estranho está sempre comigo: desmaterializando-me. E sinto uma familiaridade absurda nos seus olhos.
E aqui estou morto (mas confortavelmente instalado) no bolso do estranho com as mãos coçando.
Alimentando-me do ócio e decompondo-me em ignorância.
Histórias (re)Contadas

Quando Maomé II cercou Constantinopla, os Cristãos estavam empesteados pelo terror. A invasão moura, cuja ira aumentava graças aos excessos de confiança e desatinos de Constantino, só se fazia aumentar. No bastidor deste embate, uma querela nasce entre o sultão e seu general mais fiel, conhecido como “O impiedoso”. E essa disputa se dá enquanto os cristãos, amedrontados, buscavam no sobrenatural a razão para a própria decadência, parindo superstições e crendices, como o eclipse que atravessou a cidade, por exemplo. Rapidamente tudo tornaram-se sinais de mau-agouro. E isso enfraquecera ainda mais a certeza, antes abençoada pelo deus Cristão, de que as muralhas de Constantinopla jamais seriam atravessadas pelos turcos-otomanos.
No dia 29 de maio de 1453 o sultão decidiu pelo ataque final à cidade. Enquanto os sinos de todas as igrejas da cidade tocavam ininterruptamente, Maomé II reuniu suas tropas para um discurso final, dizendo-lhes que o inimigo já estava vencido em seu próprio coração fraco. Depois de falar por meia-hora de tal forma que seu discurso de propagou aos 80 mil soldados, o sultão quis dar a palavra o general Impiedoso, mas com um sinal discreto abriu mão do uso da palavra.
Maomé II explodiu em ira e, antes do ataque, providenciou secretamente a morte do general. “Que lhe arranquem a cabeça!”, disse o sultão. Meia-hora depois do general morto, o sultão fez questão de reunir todos outros generais em sua tenda. “Nenhum homem que ocupa determinada posição tem direito ao silêncio. É um desrespeito com as centenas de milhares de mortos que cairão em combate, com os nossos soldados e até mesmo com os inimigos. Seja por medo, seja por negligência é impossível permitir que um general tente anular-se nesse momento. Não há espaço para determinadas atitudes em determinadas situações. Fiz o que era preciso”, disse o sultão.
Uma hora depois, os turcos-otomanos entraram em Constantinopla e destruíram a cidade, ávidos de possuir as entranhas da marmórea cidade cristã. A volúpia com que os invasores tomaram a cidade fez com que o sultão rompesse a promessa dos três dias de saque aos soldados e, já no primeiro, os saques foram proibidos. Mais tarde, a Catedral de Santa Sofia, invadida, seria transformada em mesquita e a história seguiu.
o jogo
Ao dobrar uma esquina rompemos com um número imenso de possibilidades e, curiosamente, abrimos outros milhões de possibilidades na próxima quadra. Sucessivamente, criamos inconscientemente eventos aleatórios que nascem e morrem em unidades não mensuráveis de tempo. O desafio é separar num número tão vasto de possibilidades à verdade que se estabelece no nosso desejo de permanência. O desafio humano de “experienciar” corre perigo. Uma verdade basilar, uma construção de fatos e pessoas, pré-concebidos como um muro que se ergue ao redor do nosso eu. E o ato diário de descartar entre a imensa quantidade de lixo, eventos fúteis e experiências sem valor, é uma virtude que traz em si um peso.
Por outro lado, no horizonte dessas trivialidades, do banal exposto, uma parte do “eu” morre submersa no “plano perfeito”. No ajuizamento das coisas de forma simétrica, na construção do maravilhoso e utópico futuro cartesiano, as margens de erro que dão cores novas à vida são cortadas. Todos nós elaboramos planos perfeitos para a vida e justamente por causa dele que defrontamos com grandes fracassos, o inevitável fracasso original de um plano perfeito. Nesse balizamento “justo” subestimamos o defeito necessário e que nos faz temer qualquer pequena dor. Corremos para as águas calmas da ilusão. O muro está firme. O muro represa em si as águas calmas que, paradas, proliferam as bactérias da mentira.
No quebra-cabeça, a maioria das peças não se encaixa. No jogo é a sobreposição de vazios, articulações de ausências e sabotagens estranhas e raramente nos permite uma visão clara. Trapaceamos a nós mesmos. Mas, quem sabe, o segredo seja viver dentro da imperfeição e negociar um mundo menos hermético para aliviar o peso de cada jogada?
um fim....
Um fim verdadeiro não merece uma carta...
Mini-dicionário das coisas: afeto
Deixou o apartamento. Deixou tudo. E faz tempo que “tudo” era apenas umas coisas que se compra a prestação. Coisas que se deixam de um momento para outro, coisas que perdem em si mesmas a cor, o brilho, o dicionário. Coisas que vendemos por um preço maior que pagamos antes. De certa forma, é onde se fixou o acúmulo dos tempos, como os corais no fundo do oceano: vivos e imóveis. Assim foi fácil partir.
Lá fora explodiam bombas; as cotações da bolsa oscilavam artificiais como sempre, especulativas bem como é o jogo do capital, o faz-de-conta do dinheiro que vai pra lá e pra cá de acordo com a brisa (inventada); a temperatura global aumentando e os alarmes do planeta eram disparados (as focas árticas estão sufocando!); as religiões entravam em colapso total (e nem rezar se pode mais!); pobreza de um lado e a agonia por viver o máximo possível do outro (e nós?). Os jornais, tv, rádio, internet, tudo isso era um grande porre cotidiano.
Os dias passando e a solidão percebia-se com um toque. Era estranha. Uma carência de dizer umas palavras para outro. A carência física de apontar para um lugar e saber que alguém vai direcionar seu olhar para o mesmo lado; a carência de dizer sim, não, talvez. Sentada na poltrona do escritório digitando relatórios e, eventualmente, deixando o olhar escorrer pela janela, via o mundo todo lá fora com os olhos miúdos. Como todo mundo, pensava que havia tanto para ser visto e tanto para ser dividido, afinal, ver uma coisa sozinho é bom, mas dividir uma experiência é melhor. E pudera pensar na possibilidade de dividir assim, apenas um olhar, por exemplo. E depois ir para casa. Evitando a matemática, a economia dos afazeres, a economia das atitudes, a contabilidade dos abraços. Seu novo aprendizado: entender que certos valores não precisam ser medidos.
Talvez a saída fosse simples: transigir mais, entender mais, deixar um espaço maior na poltrona. Por outro lado, talvez, não houvesse saída.
de tudo
Se você for minha obsessão, minha história, um cotidiano assim, digamos, inventado. se você for aquilo que dá errado, que é sem futuro, sem imagem, que é inconsistente. se você for apenas uma parte boa da história, apenas um colorido que num dia, sem perceber, perdeu a cor.
se você tiver um sentido pouco apurado, uma inteligência curta, uma vontade reduzida, um riso desencantado.
se você colocar sempre as coisas na frente, deixando sempre de lado o ato atrapalhado, o incômodo frustrado.
se você for minha mentira, minha letra trocada, meu dia perdido, e que um dia vou tentar esquecer.
se você podia ser tudo e resignou-se a ser nada e esconder a mão na hora do aceno. se você me contar sua história e, de repente, ela parecer tão sem graça, tão sem encanto, que da minha parte só restasse espanto.
se você, da primavera, deixasse a flor mais linda, por causa dos espinhos.
se você quisesse apenas a abelha-rainha.
se você fosse tudo, menos minha.
se você, na incapacidade compreender, dissesse mentiras só para agradar.
se vcoê for uma estrela vadia e vulgar, uma esperança sombria, uma alma vazia.
se você for tudo.
se fores nada.
se fores apenas a coisa errada.
ainda assim, eu daria tudo para contar essa história.
Mini-dicionário das coisas: liberdade
Onde tu estavas quando precisei? Não sei se lembras (e nesse caso refresco as nossas mentes) que, no intervalo de um longo tempo dispensável, permaneci imóvel ainda que tenso. Aguardei apenas um sinal – um sinal vulgar - uma coisa pouca, uma maldita linha que cortasse por um momento a trajetória óbvia e, assim, na tua presença, eu justificaria certas coisas. E nada! As páginas do discurso pareceram estranhamente sem sentido. Eu falei sozinho para um bando de surdos.
Onde estavas quando senti medo? Talvez, do ponto-de-vista mais franco, somente a tua ausência é que te faz ser real. É preciso te procurar na certeza de que não estarás lá? É preciso te sentir, eu sinto, mas se tudo é um teste, ou melhor, uma simulação onde as questões (respondidas ou não) farão que voltemos ao início, o que devo fazer? Merecer-te é anular-te. Revelar-te é auto-engano. Não existes na consciência, mas como saberei pronunciar o teu nome? Estou condenado a uma vaga impressão. Uma noção da tua presença. A sempre estar a uns poucos milímetros de te alcançar com a mão.
Onde estavas quando quis te mostrar aos outros? Sim, na minha cabeça foi preciso que afirmar em praça pública. Contudo, exiges solidão e ofereces imanência. Ergui meu castelo no teu solo volátil. E todo dia, todo santo dia, recolho meus instrumentos com um punhado de areia e volto a minha tarefa fundamental.
Sim, te quero loucamente e, ainda que breve, teu suspiro é meu mais belo sopro de vida.